Pernas rapadas, cheiro a creme de massagem, lycra, fitas na cabeça, bebidas energéticas e gel, ar de "I was born to run" e uma camisoleta de manga cava, estampada com o logo de uma colectividade. Eu não tinha nenhuma destas coisas, o que me tornava um ser bizarro no meio dos milhares prontos a arrancar para os 10 Km da 2ª Corrida do SLB.
Depois de uns minutos de observação atenta do mundo que me rodeava, passou a intimidação e fingi uns alongamentos para me distrair. O maricas do Ze_Halcon cortou-se à última da hora. Sabia mais que eu.
BAM! Tiro de partida!! (na realidade não foi "BAM!", foi mais um tiro de pólvora seca muito fraquinho e que mal se ouviu, tipo um "TAC!")
Lembrei-me logo da publicidade: "Ah e tal, solta o queniano que há em ti"... e eu soltei!!!
De tal modo que arranquei muito forte e ainda me bati com os 2 quenianos que vi... ali... de igual para igual, que nem um tigre, a puxar pelo físico no limite da resistência mas entre os 6 e os 8 metros descolaram, nada pude fazer. Meti-me na luta, que é o que conta. Não tive medo de ser feliz... e, já agora, percebe-se o porquê: era impossível ser feliz; para quê ter medo?
Não fui feliz o tanas!
Fui muito feliz quando ultrapassei um velhinho de fato de treino e chapéuzinho de turista, apenas para o ver passar por mim 10 minutos depois, no seu ritmo implacável, sem pestanejar.
Fui muito feliz quando corri ao lado da Rosa Mota, e quando a vi repreender um cinquentão traquina que me cortou a curva por dentro. Ah! Toma e vai buscar!
Fui muito feliz quando vi que a multidão que passou por mim a abrir aos 4,5 Km se sentou no chão a beber água 500 metros depois porque estava inscrita na Fun Run que eram 5 Km.
E quando ia no sexto kilómetro e puxei pela Vanessa Fernandes que ia no sentido contrário a chegar à meta.
E quando assei a extensão quase total da virilha esquerda porque sou maçarico e não pus cremes e vaselina e manhosices dessas porque obviamente são rotices. Espera, aqui não fui muito feliz. Risca essa.
Ok, não fui muito feliz quando ia rebentando aos 8 Km nem quando se separaram os cromos dos maçaricos e fui passado por centenas de máquinas corredoras com ar assassino. Mas o mais doloroso para o ego, a verdadeira lição de humildade (e humidade, derivado ao suor que respingava qual fontanário com cheiro a rosas) não foram esses monstros de poderio físico. Foram os velhotes de fita na cabeça, as baleias de lycra (do pescoço aos ténis, que choravam copiosamente), os putos que passavam em sprint, sentavam-se no chão a arfar 100m depois e voltavam a passar em sprint... todos os seres improváveis que chegaram à meta primeiro que eu! Foi um festival! Só não verti uma lagrimita porque já a tinha suado. Cá estou eu outra vez a falar de suor. Já perceberam que me ficou gravado na memória.
Ainda no rescaldo desta experiência indescritível, aqui fica um pequeno guia: "Do's e Don'ts do Queniano-Wannabe":
Deves:
- Treinar pelo menos uma vez no mês anterior em vez de ir armado em campeão da escola primária
- Substimar todo e qualquer corredor à tua volta para aprenderes o mais possível com a experiência de ser ultrapassado por ele quando já estiveres a perder a visão
- Beber água quando podes para não teres crises existenciais sobre se é roto pedires água a alguém que avisadamente não deitou fora a garrafa. Óbvio que acabei por não pedir, que coisa fanchona!
- Correr até perder a consciência, enquanto fantasias sobre com que pé vai o Dady marcar o 3º golo do Belém ao Zbortén umas horas mais tarde (na altura parecia razoável...)
- Sprintar à chegada. É um ponto de honra, mesmo que te custe 3 anos de vida a certos e determinados orgãos vitais.
Não deves:
- Acenar para as câmaras que existem ao longo do percurso. Toda a gente tem uma foto, normalmente do jardim de infância, em que foi apanhado a acenar para a foto para responder ao operador. É como contratar o Pinilla: na altura parece uma boa ideia mas o resultado é péssimo.
- Cantar hinos ou gritar palavras de ordem das claques do clube que patrocina a prova enquanto passas a correr no estacionamento do estádio só para aproveitar o eco e desmoralizar os corredores de outros clubes. É parolo e sobretudo priva-te de oxigénio. Ver seguinte.
- Suster a respiração mais que 2 segundos; é provável que morras se tiveres essa audácia.
- Fingir-te surpreendido pelos apitos dos sensores nos pontos de controlo como se te tivessem dado um tiro. É parvo.
- Inscrever-te na corrida mais longa, sobretudo se nunca correste, a não ser que queiras ter uma história para contar.
NOTA: Há outros ensinamentos que posso transmitir se incentivado através de donativos em numerário. Tenho que ir à Decathlon, sabem como é... a lycra tá cara!
E para o ano há mais! E preparem-se idosos frequentadores de lares e colectividades obscuras, vou estar muito forte! E levo os restantes Trolls para não se rirem à bruta como quando lerem isto! Patifes!