Vídeos com alguma facécia

Agora é possível desfrutar de alguns vídeos relacionados com os textos. Para isso basta carregar no título do post. O título é aquela coisa a Negrito, com umas letras maiores, e que antecede as profícuas palavras deste blog. Advertência: Caros leitores, estão completamente proibidos de ver os vídeos antes de lerem as barbaridades escritas, correndo o risco de serem atingidos por uma comichão deveras desagradável na zona da púbis, seguido de pé-chato nas mãos e escorbuto nos tornozelos.

Thursday, December 30, 2004

Os guardiães do labirinto

Por vezes a mesquinhice, tacanhez e completa idiotice de algumas pessoas faz-me recordar a história do labirinto e do seu guardião.

Hoje aconteceu-me novamente uma dessas situações, e dei para mim a pensar por que raio somos uma sociedade tão burocrata, cheia de palas nos olhos quanto às regras de convivência e funcionamento das instituições.

A sociedade portuguesa, ao (pseudo)desenvolver-se na modernidade, criou uma série de mostrengos burocratas, cujo gozo supremo não é provocar irritação nos outros mas, ao invés, cumprir, em quaisquer circunstâncias e situações, literal e completamente com os seus deveres.

São os guardiões do labirinto.

Não imagino que os portugueses do séc. XV alguma vez pudessem ter sido assim. Será que, à partida das Caravelas do Tejo para novas viagens de Descobrimentos, existia um guardião do trânsito do Tejo, um polícia fluvial? Alguém que pudesse impedir a saída dos navios com o argumento de se estar a desrespeitar qualquer regulamento, régio ou de outra natureza, que previsse as horas do tráfego ribeirinho? Que impusesse directrizes quanto à cor das velas dos navios, qualidade dos dentes dos marinheiros ou presença de roedores a bordo?

Nessa altura podíamos ser tudo: aventureiros, destemidos, inconscientes, facínoras, colonialistas... Mas, porra!, burocratas é que não!

Hoje em dia os portugueses evoluiram:

temos melhores índices de escolaridade (ainda que para um miúdo de 10 anos chumbar, seja preciso matar um professor, violar as mães de dois, sequestrar 4 colegas durante uma semana com ameaça de arma de fogo. E ainda assim a votação vai ser renhida no conselho de turma...);

temos melhores índices de rendimento per capita (Champalimmaud, volta!, a coisa tá mais fracota);

e temos, para voltar ao início, mais e melhores guardiães do labirinto.

A história é simples:

Depois de umas férias num paraíso tropical, chegar a Portugal deveria ser sinónimo de chegar ao "primeiro mundo". Ou não...

9h da manhã. O tráfego de pessoas no terminal de chegadas não era exagerado. Logo após a saída para o exterior, estende-se uma longa e interminável fila de táxis esperando impacientemente cliente. Para chegar até lá, já só faltava passar uma última prova: o labirinto.

O labirinto é um daqueles dispositivos de controlo de manadas humanas. Um formar fila obrigatório (quem andou dias sem fim na Expo 98 sabe a que me refiro: alguns postes metálicos, ligados por correntes, que delineiam um caminho serpenteante a percorrer até ao seu final), que os portugueses ou os estrangeiros que por cá passam (em Roma,...) não atingem um nível de civilidade mínimo para formarem filas por eles próprios, sem atropelos ou malandragens.

No final do labirinto, a borda do passeio e um táxi parado à espera.

Mas não só: no final do labirinto, também um funcionário (sei lá de quem...): o guardião do labirinto.

Nesse dia, pelas 9h, ninguém percorria os caminhos ziguezagueantes do labirinto. No final deste, um casal entrava num táxi, demorando mais algum tempo que o normal, devido ao excesso de bagagem que transportava. À nossa volta, nem vestígios de seres humanos num raio de 20 metros.

Como é óbvio, não percorremos o labirinto. Colocamo-nos atrás do casal e esperamos que o táxi arranque e se chegue o próximo.

Nisto, salta o nosso guardião do labirinto, defensor de regras de conduta cuja violação só pode ser, certamente, reprovável moral e eticamente a um nível próximo do criminal (e não deve ser uma bagatela criminal, juro!): "Onde é que os senhores vão? Têm de percorrer aqui o caminho. Não podem passar assim ao lado."

Explicamos que não está ninguém no labirinto e que não faz sentido percorrê-lo se a razão de ser dele é impor uma ordem a um conjunto de pessoas que, pura e simplesmente, não existe.

A resposta é óbvia: "Peço desculpa mas eu só executo ordens. E a ordem é para isto ser cumprido."

Reafirmamos que não faz qualquer sentido isso. O senhor parece ceder. Nisto, três pessoas começam a percorrer o labirinto. O que dá um novo fôlego à argumentação do guardião do labirinto: "Estão a ver? Os senhores agora perderam a prioridade. Aqueles senhores passam-lhes à frente.".

Rematando com um fantástico "Além disso, nenhum taxista os vais transportar se não tiverem percorrido o caminho entre os postes.". Como é óbvio!... Qualquer taxista que se preze selecciona a sua clientela a dedo: "Humm, este senhor hoje não gargarejou com elixir. Lamento mas não pode entrar no meu veículo..." ou então "Desculpe lá, eu vi-o a atravessar a rua, ainda que na passadeira, mas com o sinal vermelho para os peões. Tente com o meu colega, mas acho que vai ter de ir a pé...".

Estavamos nesta conversa de surdos (recapitulando: um guardião do labirinto, duas pessoas que não percorreram o labirinto e três pessoas que percorreram o labirinto) quando um outro elemento se junta ao grupelho.

Um polícia, devidamente uniformizado e identificado, que pergunta o que se está a passar. Ouvidas as partes e seus respectivos argumentos, a sua decisão salomónica é tremenda e diz-me quase em surdina "Um dos senhores fica aqui e o outro vai lá percorrer aquilo. Não custa nada.".

Pois não. Realmente não custava nada. Pela nossa parte, saímos dali e fomos apanhar o táxi junto do terminal de partidas.


Grassam guardiães do labirinto por aí. Resta saber de quem é a culpa: se deles, se de quem os cria...

1 comment:

Anonymous said...

Partilho em tudo da opinião aqui deixada ...